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Porque é que a correção de erros não pode ser silenciosa

Corrigir «tenis» para «ténis» é a parte fácil. Difícil é dizê-lo ao cliente sem o fazer sentir corrigido, e saber quando não se deve corrigir nada.

Daniel Silva Buskara
8 min de leitura
Porque é que a correção de erros não pode ser silenciosa

Em resumo

  • Corrigir um erro de escrita é fácil; decidir se se avisa o cliente é que separa uma boa pesquisa de uma pesquisa que confunde.
  • Há três comportamentos possíveis, e cada um erra de maneira diferente: silencioso, com aviso, ou com sugestão.
  • Referências, códigos de produto e nomes próprios são o território onde corrigir estraga mais do que resolve.
  • A regra que usamos: corrigir sempre que a pesquisa não devolveria nada, e dizer sempre que se corrigiu.

Quase toda a gente escreve mal alguma coisa na caixa de pesquisa. Falta um acento, troca-se uma letra, o telemóvel corrige o que não devia. Algumas plataformas pedem que cada erro seja previsto e escrito à mão numa lista, que é o caso da pesquisa nativa do PrestaShop. A pesquisa da loja tem de aguentar isso, e hoje quase todas aguentam: a distância de edição entre «tenis» e «ténis» é um caractere, e qualquer motor moderno resolve essa parte sem ajuda.

A parte difícil vem a seguir, e é uma pergunta de produto e não de engenharia: o cliente deve saber que foi corrigido?

O que se passa quando não se avisa

Uma correção silenciosa é a mais simples de implementar e a que parece melhor numa demonstração. O visitante escreve «samsug», recebe telemóveis Samsung, e ninguém se queixa.

O problema aparece nos casos em que a correção está errada. O visitante escreve «ceramica» a pensar em placas de indução e recebe louça, sem nenhuma pista de que o motor decidiu procurar outra coisa. Do lado de lá, o que se conclui não é «a pesquisa corrigiu-me mal». É «esta loja não tem o que eu procuro».

Este é o custo escondido da correção silenciosa: transforma um erro do motor num juízo sobre o catálogo. E como o cliente não sabe que houve correção, também não a pode desfazer.

Três comportamentos, três custos

Comportamento O que o cliente vê Onde falha Quando faz sentido
Corrigir em silêncio Resultados, sem explicação Correção errada lê-se como catálogo pobre Nunca, sozinho
Corrigir e avisar «A mostrar resultados para ténis. Procurar antes por tenis Ocupa uma linha acima da grelha Quando sem correção não havia resultados
Sugerir sem corrigir «Sem resultados. Quis dizer ténis Custa um clique e uma página vazia Quando o termo original tem resultados legítimos

A terceira linha é a que a maioria das lojas usa por omissão, e é a pior das três no caso mais comum: mostrar um ecrã vazio a quem se enganou numa letra é fazer o cliente pagar o preço do erro com um clique extra, quando o motor já sabia a resposta. O ecrã sem resultados é, aliás, o sítio onde mais lojas falham: no benchmark de pesquisa do Baymard Institute, perto de metade dos sites avaliados não oferece forma nenhuma de recuperar de uma pesquisa vazia.

Quando corrigir é a decisão errada

Há um conjunto de pesquisas em que qualquer correção é um risco, e todas têm a mesma característica: o termo escrito não é uma palavra, é um identificador.

  • Referências e códigos internos. Quem escreve «AB-4471X» está a ler o código de uma caixa, de uma fatura ou de um manual. Corrigir para «AB-4471» devolve o produto errado com toda a confiança do mundo.
  • Nomes próprios e marcas. Muitas marcas são, à letra, palavras mal escritas. Corrigi-las é apagar do catálogo aquilo que o cliente veio comprar.
  • Termos técnicos raros. Numa loja de componentes, a palavra correta pode aparecer duas vezes no catálogo inteiro. A correção puxa para o termo comum e afasta do certo.

A regra que seguimos é conservadora: quanto mais o termo se parecer com um identificador (dígitos, hífenes, maiúsculas no meio), menos se corrige. E quando o termo original devolve resultados, a correção nunca substitui: quando muito, sugere.

Prós e contras de corrigir de forma agressiva

A favor Contra
Menos pesquisas vazias, com efeito imediato no número Esconde o vocabulário em falta: o relatório deixa de mostrar o problema real
Cobre teclados de telemóvel, que erram muito Uma correção errada parece falta de catálogo
Não exige manutenção nenhuma Estraga pesquisas por referência e por marca
Funciona em línguas com acentos, onde metade das pessoas não os escreve Pode mascarar produtos com o nome mal escrito na própria ficha

A quarta linha da coluna direita merece atenção. Quando a correção é agressiva, um produto cujo nome está mal escrito no catálogo continua a ser encontrado, e ninguém repara no erro durante anos. A pesquisa deixa de ser o sítio onde os erros do catálogo aparecem.

A primeira também. Uma pesquisa vazia é a única lista onde o cliente escreve o que queria comprar, e uma correção demasiado zelosa apaga-a: o termo passa a devolver resultados e desaparece da lista das pesquisas sem resultados, que é precisamente onde ele era útil.

Como está no Buskara

No Buskara o comportamento é o da linha do meio da tabela, e chega-se lá por quatro camadas que não se configuram: ou funcionam para toda a gente, ou não valiam a pena.

A primeira normaliza acentos e maiúsculas, porque ninguém escreve acentos no telemóvel a meio de uma compra. A segunda tolera letras trocadas, a mais ou a menos, com a tolerância a crescer com o comprimento da palavra. Esse detalhe é o que separa uma correção prudente de uma perigosa: «anel» e «anal» distam uma letra e não são a mesma pesquisa, por isso em palavras curtas não se tolera nada. Em palavras compridas, uma letra trocada quase nunca é outra palavra, e aí a tolerância abre.

A terceira camada trata do que ainda está a ser escrito: «vibrado», «vibradpres» e «vibradores» são reconhecidos como a mesma pessoa a escrever a mesma coisa, mesmo com um apagar pelo meio. É o que evita um «sem resultados» a piscar a meio de uma palavra, e é também o que faz as analytics contarem pesquisas e não teclas.

A quarta só entra quando as outras não chegaram e a pesquisa cairia mesmo em zero: uma releitura por IA do que a pessoa queria dizer. E diz-lho, com o termo original à vista. Uma pesquisa que devolve resultados diferentes do que foi escrito, sem o dizer, parece avariada; a dizê-lo, parece atenta.

Confirmar o que está mesmo a acontecer a um termo faz-se no playground, que mostra os resultados e as correções aplicadas sem contar como pesquisa de ninguém. Do lado do lojista, as gralhas não poluem os relatórios: uma variante rara fica encostada ao termo que ela queria ser, e vêem-se os dois. O critério é conservador de propósito, porque enterrar um termo real dentro de outro esconderia procura verdadeira por uma coisa que a loja não vende. O ecrã de otimização tem a lista das variantes já agrupadas, que serve sobretudo para saber o que não precisa de sinónimo.

Perguntas frequentes

O que é a correção de erros numa pesquisa de loja?

É a capacidade de devolver resultados relevantes quando o termo escrito não existe no catálogo por causa de uma gralha, de um acento em falta ou de uma troca de letras. Tecnicamente compara-se o termo com o vocabulário do catálogo e aceita-se uma ou duas diferenças de caracteres, conforme o comprimento da palavra.

A correção deve ser visível para o cliente?

Sim, sempre que ela mudar o que é procurado. Uma linha curta acima dos resultados a dizer o que está a ser mostrado e a oferecer a pesquisa original resolve o caso em que a correção acertou e o caso em que falhou, sem obrigar ninguém a escrever outra vez.

A correção de erros prejudica as pesquisas por referência?

Prejudica, se for aplicada sem critério. Termos com dígitos e hífenes devem ser tratados como identificadores e não como palavras: quem escreve um código está a lê-lo de uma caixa e quer aquele produto exato, não um parecido.

Corrigir erros substitui os sinónimos?

Não. São problemas diferentes: a correção trata de quem escreveu mal a palavra certa, os sinónimos tratam de quem escreveu bem a palavra errada. «Tenis» é correção; «running» para «corrida» é sinónimo. Nenhuma distância de letras aproxima «auscultadores» de «headphones», e é por isso que uma loja precisa das duas coisas. O tema do vocabulário do catálogo está tratado em o seu catálogo está escrito para o fornecedor.

Como se sabe se a correção está demasiado agressiva?

Pela lista das variantes que o motor já agrupa, que no Buskara vive no ecrã de otimização. Dois sinais de que está a corrigir de mais: termos com resultados próprios a serem substituídos, e pesquisas por marca a acabarem noutra marca. O sinal contrário, de que está a corrigir de menos, é uma lista de pesquisas vazias cheia de termos que diferem do catálogo por uma letra.

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Daniel Silva

Escreve sobre pesquisa e descoberta de produto no blog do Buskara.

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